Wednesday, 11 July 2012

Quando a gramática degrade

Gramática

s.f. Conjunto de princípios que regem o funcionamento de uma língua. A gramática orienta como as palavras podem ser combinadas ou modificadas para que as pessoas possam comunicar-se com facilidade e precisão. Não é preciso que uma língua possua escrita para ser dotada de gramática. As línguas indígenas, por exemplo, embora sejam apenas faladas, têm seus próprios princípios de funcionamento.

dicio.com.br



Interessante...A expressão "Kilombo" na sociedade Argentina, tal e qual como a palavra sanzala em Angola e outros paises de língua oficial portuguesa, e' vulgarmente usada de uma forma pejorativo. Bem racista ate' diria!

Por la', do mesmo modo que em Uruguay,  a
expressão implica bagunça, algazarra, confusão, desordem, sujeira.
¡Qué kilombo! (Que desordem!)
Se va a armar kilombo! ( Havera' disturbios!)


Para os Venezuelanos, uma localização remota e de difícil acesso, enquanto que entre os Bolivianos, Chilenos, Paraguaianos e claro, os citados Argentinos, a palavra se relaciona com prostíbulos, lugares de prostituição.


Sabe-se que nos idiomas Bantu (Kongo/Angola), origem da palavra Kilombo, significa um certo tipo de comunidade. E no Brasil, com um pouco de ajuda do dicio.com.br, teriam sido Aldeias em que se concentravam os escravos que fugiam das fazendas, minas e casas de família, onde eram explorados e sofriam maus tratos. Os escravos, para não serem encontrados, escondiam-se nas matas, nos lugares mais inacessíveis, como o alto das montanhas e grutas. Aí se reuniam e levavam vida livre.

As pequenas aldeias eram também chamadas mocambos. Os maiores quilombos eram formados por vários mocambos. Seus habitantes eram chamados quilombolas. Enquanto durou a escravidão no Brasil, desde a colonização até o final do Império, existiram os quilombos.

Creio que todos nós devemos ter a obrigação moral e ética de infrentar a situação, excluir esse pensamento e expressões gramaticais degradantes das nossas sociedades.
     

(A. Kandimba)




*Foto do blog Torre da história ibérica: Um eumbo (kilombo), ou aldeia Kwanyhama. Os Cuanhamas pertencem ao grupo étnico dos Ambós, e ocupam a parte central do Sul de Angola, fronteira à Namíbia.

Fontes: http://buscon.rae.es/drae/?type=3&val=Kilombo&val_aux=&origen=REDRAE

Meu nome, minha identidade

Durante o tempo colonial em Angola, o colono Portugues, com o seu odio a cultura e rancor violente para com os costumes e tradicoes africanas, tentou oficializar, forçando a denominacao de todas as senhoras negras de “Maria”.

A revolta das comunidades provocaram centenas de mortos entre os camponeses da Baixa de Cassange. Isso nos anos 70.

A tradicao Africana diz-nos que os nossos nomes, de uma certa forma, sao as nossas identidades, as janelinhas das nossas culturas e do nosso ser. Os nossos nomes ligam-nos ao passado, nossos antepassados e se prolongam ate' uma parte das nossas espiritualidades.

Mas quem nao tem cultura nem espiritualidade talvez nunca entendera' do que se trata.

Nasceu de uma conversa com as irmas Tata Akilah Alile e Sara Santos sobre nomes africanos. Elas, la' pelo Brasil, desejam ter uma ligacao mais forte com os seus antepassados e estao despostas, ate' por lei, a ter um nome Africano.

Nao creio que Maria seja um nome negativo neste sentido, mas se o horror das ideologias coloniais se tivessem prolongando e espalhado pelo pais afora, teria acontecido um massacre "total" da nossa identidade e cultura.

Os poucos livros que existem sobre nomes Africanos, geralmente sao repetitivos e se concentram apenas numa parte do Continente. Sem ser da cultura Swahili, nao se encontra nomes Bantus, nomes do sudeste da Africa...muito menos de Angola.

Entao aqui vai a minha contribuicao. Comecei hoje, pesquisarei 100 nomes Angolanos, culturas espalhadas por Namibia, Zambia e o Congo posterioremente, por serem fronteiras e terem um significante numero de Angolanos, e pretendo publicar algo em 2014.

Por favor, nao tenham vergonha de me cobrar, ta'?

A. Kandimba

O Fogo


A morte não põe termo à sobrevivência comunitária.

"A pessoa que morre não extingue o fogo, os vivos continuam a servir-se dele – o fogo". 
Próverbio Ovimbundu (Angola)
Foto: Mumuila, Angola

*Could not find the name of Photographer. Feel free to claim your Photo.

Wednesday, 30 May 2012

Júlio, o rei Afro-Boliviano

                   Foto: Rainha e Rei da comunidade AfroBoliviana.
   
Prometo mediante juramento, tomando por testemunha divindade, que foi através do dom de uma mente aberta que recentemente aceitei o convite do Embaixador Boliviano na Holanda, sua Excelência Roberto Cazadilla Sarmiento, para uma conversa e trocas de ideias de natureza e proeza cultural.

Assim se sucedeu...Enquanto eu, orgulhosamente lhe informava sobre os meus objetivos em provocar uma reconexão mais eficaz com o continente africano e suas diásporas, o embaixador não hesitou em expressar a sua afeção e admiração pelos tambores africanos, realçando que "nós também temos cultura africana na Bolívia".

Há anos que tenho conhecimento sobre a arte Boliviana de música e dança conhecida como Saya. E de acordo com o pesquisador Afro-Boliviano Juan Angola Maconde, seria uma palavra do idioma Kikongo, Nsaya, significando trabalho comunitário liderado por uma voz...Música de trabalho.

Mas confesso que me envergonhei de não me ter lembrado da monarquia Pinedo.


Com a eleição de Juan Evo Morales Aym em 2006, o primeiro presidente indígena do país, abriram-se novas portas em prol do reconhecimento das comunidades, da história e da cultura de matriz Africana, rotuladas inúmeras vezes como extintas ou simplesmente inexistentes na sociedade Boliviana e entre vários outros países Sul americanos.

Entre 1992 e 2007, Júlio Pinedo foi empossado pelo prefeito do Distrito de La Paz e ganhou o reconhecimento oficial do Estado Plurinacional da Bolívia, coroado como o rei cerimonial dos povos
Afro-Bolivianos da província de Yungas, 30 anos após a morte do seu antepassado.

O seu avô, o falecido Bonifácio Pinedo, nascido no inicio do século passado, foi o último rei.  A monarquia é uma das poucas monarquias tradicionais africanas que sobreviveram até os dias atuais.


 


Segundo a tradição oral contada pelo rei Bonifácio, o mesmo foi o membro mais antigo da comunidade, um nobre descendente direto do Congo, antes da invasão total colonial da França e Bélgica.  Afirmando que, na era colonial a dinastia foi reduzida à escravidão e trazida para o novo mundo pelos "conquistadores" espanhóis.

Quem diria!!!

A arte Saya e a coroação do rei, entre outras manifestações culturais, têm sido peças fundamentais para com a auto-estima e identidade do povo Afro-Boliviano, justamente reconhecidos pelo atual Presidente, depois de mais de 500 anos de existência e resistência. 

(A.Kandimba)

Fotos: 1 Maegan La Mala. 2 do blog "We of the Saya/Abnomad Media. 3 Americas Quartely.
 



Sunday, 22 April 2012

Buscando raízes



Primeira foto:Carnaval da Vitória de Antonio Ole' 1978 (Luanda, Angola).
Segunda foto:Mãe Menininha (centro) e suas sacerdotisas do candomblé Ilé Axé no Yá Masse templo, Salvador, Bahia, 1940-41. Lorenzo Dow Turner Papers, Anacostia Community Museum Archives, Smithsonian Institution.



Em 1975, o invasor foi expulso juntamente com a sua bandeira. 

Os motivos do divertimento e alegria nos rostos e nas palmas das mãos das senhoras, (ver imagem), devem-se as celebrações decorrentes aos preparativos do Carnaval da Vitória em 1978. O primeiro Carnaval da cidade de Luanda, capital de Angola, após a independência total do regime racista, fascista e desumano colonial português.

As senhoras, de maioria falantes da língua Kimbundo e de descendência Axiluanda ou Aluandas, distinguidas honradamente de Bessanganas, senhoras de respeito, do português a sua bênção n’gana (minha senhora), encantam as ilhas há centenas de anos, com os seus tambores de couro e de lata, cultuando uma divindade ancestral do mar...A Kianda.

Mas a curiosidade se destaca nos panos e trajes que se vestem.
Os trajes, em certos sectores do Candomblé Ketu e Jeje são tão semelhantes aos das senhoras das ilhas de Luanda...A maneira de amarrar os panos e o uso das missangas por dentro.

E’ necessário realçar que essas mesmas senhoras, de uma certa forma, desconhecem o Candomblé do Brasil.

Fala-se tanto de purezas por esse mundo afora, mas será esta a origem e o fundamento?
(A. Kandimba)

Informação básica para iniciantes de curiosidades como eu:

Candomblé Ketu (pronuncia-se queto) é a maior e a mais popular "nação" do Candomblé, uma das Religiões afro-brasileiras.
No início do século XIX, as etnias africanas eram separadas por confrarias da Igreja Católica na região de Salvador, Bahia. Dentre os escravos pertencentes ao grupo dos Nagôs estavam os Yoruba (Iorubá). Suas crenças e rituais são parecidos com os de outras nações do Candomblé em termos gerais, mas diferentes em quase todos os detalhes.
Teve inicio em Salvador, Bahia, de acordo com as lendas contadas pelos mais velhos, algumas princesas vindas de Oyó e Ketu na condição de escravas, fundaram um terreiro num engenho de cana.

(Silveira, Renato da
. Candomblé da Barroquinha. Editora Maianga, 2007.)


Candomblé Jeje, é o candomblé que cultua os Voduns do Reino de Dahomey levados para o Brasil pelos africanos escravizados em várias regiões da África Ocidental e África Central. Essas divindades são da rica, complexa e elevada Mitologia Fon. Os vários grupos étnicos - como fon, ewe, fanti, ashanti, mina - ao chegarem no Brasil, eram chamados djedje (do yoruba ajeji, 'estrangeiro, estranho'), designação que os yoruba, no Daomé atribuíam aos povos vizinhos, introduziram o seu culto em Salvador, Cachoeira e São Felix, na Bahia, em São Luís, no Maranhão, e, posteriormente, em vários outros estados do Brasil.

(CACCIATORE, Olga Gudolle. Dicionário de cultos afro-brasileiros.)

Sunday, 25 March 2012

Dinyanga...O caçador


DINYANGA...
o espírito caçador Axiluanda
que encanta e protege, com rigorosa Ombanda,
 as florestas de Kissama, de Matamba, do N'dongo e de Luanda.

As suas palavras, amadas acima de todos e de tudo
e em Kimbundu,
Uikila Mbondo huinhi ji ku bua
“Ateia o embondeiro (Baobab) que a lenha se te acaba” 
Refletem a profundidade da sua sabedoria e mistério.

(A. Kandimba)


Referência: Carnaval, a maior festa do povo Angolano. 
Roldão Ferreira

Thursday, 8 March 2012

África, por seres Mulher


Neste dia Internacional da Mulher, não esquecer a mãe que mais filhas e filhos gerou...a mãe Africa!

Obrigado mãe pelos filhos que nos destes.
Te rimo, desde já, sem orientações e sem teses.

Grato pelos cabelos singelos
e as nossas mentes independentes.
Os nossos olhos livres de abolhos,
e os nossos corações valentes.

Grato pelos braços...Nossos laços,
e o nosso espírito luzente.
Nossos peitos feitos leitos
e nossos corpos...Figuras imponentes.

(A. Kandimba)


8 de Março de 2012 (Dia internacional da Mulher)
Imagem: Ben Heine

Monday, 5 March 2012

Israel: A nova Diáspora Africana

"Às vezes me sinto como uma criança sem mãe"

E Foi assim, acerca de vinte anos atras, através desta música, que vim a conhecer e a desenvolver o interesse profundo e fervente que tenho pelos Beta Israel*, os Judeus da Etiópia.

Eles são erroneamente chamados de Falashas (estrangeiros ou pessoas sem terra) e se orgulham de ser os descendentes do rei Salomão e da rainha Sheba, também conhecida como Makeba.

De acordo com a lenda, Israel é a terra santa e prometida de todo judeu.
A seculos que a comunidade afirma ser vítima de perseguições religiosas e aproximadamente 30 anos atrás, o governo Israelista, colocou em vigor várias operações de resgate, em segredo, desde o deserto do Sudão, dando início das fugas em massas de judeus da Etiópia.

Desde a Operação Moisés em 1984, que há mais de 100.000 judeus etíopes em Israel. Mas por mais que este acontecimento nos emocione e de certa maneira nos faz parecer um conto de fadas, a aceitação e a integração numa sociedade cuja maioria descende da Europa, do Oriente médio e do Norte da África, não tem sido fácil.

O orgulhoso povo do Chifre da África continua a enfrentar grandes dificuldades, sofrendo a calamidade do desemprego, do racismo, da depressão, do suicídio, do alcoolismo e da pobreza constante...Facto esse que presenciei durante as minhas viajens de lazer e pesquisa, precisamente nas cidades de Jerusalém e Tel Aviv.

Reconhecidos nacionalmente como fortes e bravos soldados e pela lealdade que demonstram ter para com as Forças de Defesa de Israel, a comunidade hoje se manifesta, sentindo-se traída, usada para simplesmente proteger, por interesse, o Estado de Israel.





Um dos momentos em que mais se reflete as forças interiores e coragem da comunidade seria o Sigd, um festival anual Beta Israel que recentemente se tornou um feriado nacional.

Através da batida dos tambores Bongo, rostos de homens, mulheres e crianças brilham.
Para cada rosto brilhante devemos recordar-lhes que eles são verdadeiros guerreiros e guerreiras e que iram comprir os seus sonhos, superar as dificuldades em prol das suas vontades de viver.

* Beta Israel= a casa de Israel

Setembro 2010
Artigo para o programação de cinema Beta Israel.
Africa in the Picture
Festival de cinema africano e da diaspora em Amsterdam , Holanda.

A. Kandimba

Fotos:Josh kram e Uriel Sinai.

Sunday, 12 February 2012

Estudar e’ um dever Revolucionário 2 : Bula Matadi e Mutu-YA-Kevela

Desfolhando e apregoando, pela segunda vez, as páginas dos livros guardados, mas longe de serem ignorados, dentro do baú da minha infância.

Para que os nossos heróis e heroínas sejam louvados e as nossas batalhas honradas eternamente.


Bula Matadi

Houve um aristocrata (Mwata) que vendo o perigo que corria o seu povo, fez uma guerra de resistência para que não fossem explorados e dominados pelos portugueses. Vejamos como se desenrolou a guerra da resistência chefiada por Bula Matadi no Reino do Congo.

O povo queria obrigar o rei a expulsar todos os portugueses e assim acabar com as suas intrigas que enfraqueciam o reino. A revolta foi chefiada por Bula Matadi. Ele conseguiu mobilizar o povo de todo o reino contra o rei do Congo.

Os portugueses intervieram militarmente ao lado deste rei, conseguindo, depois de muitas batalhas, vencer a resistência. Bula Matadi foi morto no último combate. Ele, apesar de ser aristocrata, foi capaz de lutar pelos interesses do povo. Este herói não deve se esquecido pelo povo angolano. A revolta de 1570 foi uma revolta popular contra a presença dos portugueses e contra os aristocratas seus aliados.

Mutu-Ya-Kevela

Os colonialistas em 1902 tinham ocupado grande parte do território angolano. No planalto alguns comerciantes portugueses conseguiram fixar-se em busca de milho, cera e borracha. Alguns fortes tinham sido construídos no huambo e Bie para apoiar as trocas comerciais e tentar aos poucos a ocupação do local.

Mutu Ya Kevela era soma no tempo do rei Kalandula do Bailundo (1902). Nessa altura grande repressão ordenada a partir do forte do Bailundo. Mutu Ya kevela em 17/04/1902 afirmou ao representante da autoridade portuguesa que não reconhecia essa mesma autoridade. A partir daí Mutu reuniu todos os sobados e reinos do planalto e preparou-se para a guerra. Esta revolta, que se estendeu a todo o interior de Angola, foi contra o trabalho forçado que era praticamente o mesmo que o trabalho escravo.

A revolta chefiada por Mutu Ya kevela paralisou por completo o recrutamento de pessoas e o comércio por certo tempo. Toda comunidade com o litoral foi cortada, os comerciantes espoliados e mortos, os fortes foram atacados.

Nesse mesmo ano, Mutu construiu o seu acampamento de guerra a norte do reino do Huambo. As forças reunidas por ele somavam, talvez, os 6.000 homens. Mas a falta de artilharia e número suficiente de armas de fogo criou grandes dificuldades.

É de notar que os portugueses atacaram com três colunas militares, força essa que conseguiu abafar a revolta. Mutu YA Kevela morreu em Agosto de 1902 em combate. A prova de que o povo estava mobilizado para essa luta foi que a morte de Mutu não impediu que a revolta continuasse.

Esta revolta é mencionada por todos os historiadores da África como uma das grandes revoltas contra o colonialismo. A luta pela expulsão do invasor colonialista, pela abolição da escravatura e a exploração, vem de longos anos, como nos mostra a História.

Por isso devemos render homenagem a esses heróis que nos antecederam pela sua bravura, coragem e decisão.

"Iniciação a história de Angola", ensino de Base 4ª classe, escrito pelo Ministério da Educação."

Saturday, 4 February 2012

Estudar e’ um dever Revolucionário


“Na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de mulheres e homens, munidos de paus, catanas e outras armas brancas, atacaram a casa de reclusão e a cadeia de São Paulo em Luanda, Angola, para libertarem presos políticos, ameaçados de morte.
O regime colonial fascista reagiu brutalmente e respondeu com uma acção de repressão em todo o país, com assassinatos, torturas e detenções arbitrárias.”(luta popular on –line)



No espírito do 4 de Fevereiro de 1961... Início da luta armada pela independência de Angola, um dos processos mais difíceis, dolorosos, complexos e demorados entre as emancipações africanas.

Enquanto ainda muitos derramam lágrimas de crocodilho pela perda da joia da coroa, a alma forte da exaltação pelo nacionalismo angolano aumenta robustamente.

A vida no tempo colonial foi extraido das páginas do livro escolar "Iniciação a história de Angola", ensino de Base 4ª classe, escrito pelo Ministério da Educação.
Uma das mais vibrantes relíquias da minha infância...Algo que carrego comigo há mais de 30 anos. (A. Kandimba)


A vida no tempo colonial

Para Oscar Kandimba


Durante muitos anos de guerra e de tráfico de escravos, os portugueses foram preparando o caminho para a colonização.

Contudo, os colonialistas portugueses só há cerca de 70 anos ( escrito nos anos 60)conseguiram fazer a ocupação militar de todo o território para melhor exploraram diretamente as riquezas e abafar as revoltas. Nessa altura, deixaram de fazer o comércio de escravos, mas em seu lugar surgiu o trabalho forçado, uma das características mais dominantes nas colônias portuguesas.

O trabalho forçado, sobre a forma de contrato, consistia no seguinte: todo o indígena que não pudesse provar que trabalhara durante pelo menos seis meses no ano interior, estava sujeito ao trabalho forçado em proveito do Estado ou de patrões privados. O fazendeiro quando precisasse de mão-de-obra requeria-a ao Governo.

Por sua vez, o chefe de posto ou outro administrador da região, mandava o angariador reunir na Sanzala (aldeia) o número de homens soliticados.
Estes desgraçados deixavam as suas famílias e iam para terras distantes trabalhar: nas grandes roças de café e cacau em São Tomé. Nas indústrias pesqueiras da baia dos tigres; nos extensos campos de sisal, algodão, no corte de madeira, etc.

Em compensação recebiam salário de miséria, maus tratos, pois mesmos doentes nunca deixavam de trabalhar. O dono não se preocupava com os trabalhadores assim alugados.

No caso de morte o Estado fornecia outro trabalhador.

Os homens que resistiam ao trabalho regressavam sem nada, pois o fazendeiro era também proprietário de uma cantina onde o trabalhador era obrigado a gastar o salário de miséria. Muitos depois não mais voltam as suas terras, ou por terem contraído dívida ou por morte.

Havia ainda os trabalhadores voluntários que, lutando pela sobrevivência, pois a fome dizimava o povo, eram obrigados a assalariar-se. Era isso que o governo colonial queria, porque desse modo o salário era muito mais baixo que o do contratado, e as horas de trabalho estipuladas ao gosto do fazendeiro ou outro proprietário.

O trabalho nas estradas era feito por mulheres, moçinhas, crianças e velhos das Sanzalas.

Não havia um pouco de compaixão pelas mulheres grávidas ou com filhos as costas.

O trabalho não era pago. A alimentação e até os instrumentos eram levados pelo próprio explorado.

Esta foi a época de maior exploração das riquezas de Angola e do seu próprio povo. As rusgas humilhantes, as prisões vergonhosas e desumanas, o desemprego, os impostos, os desterros, o açambarcamento dos bens do povo, a miséria, as perseguições feitas nas cidades e povoações pelas administrações, chefes de posto e policia, nas Sanzalas e quimbos (comunidades) pelos regedores e capatazes, tudo isso tornou impossível o povo suportar a vida triste e dura imposta pelo Estado colonial.


11 de Novembro de 1975, Independência de Angola.


... o "último" soldado português em Angola transportando a bandeira nacional ....



Sunday, 29 January 2012

Kianda de Luanda


Foto:Bessanganas de Luanda

"Minha mãe a sereia me agarrou...Minha mãe a sereia me agarrou...Pelo cordão de ouro...Pelo cordão de ouro...Tum Tum sereia...Tum Tum sereia."


E foi assim, através desta melodia sussurrada dos lábios da minha mãe, quase sempre em noites completas e fechadas, que me viciei das estórias e lendas místicas africanas. Eu, caçulo, fixado nos espíritos dos contos, alimentando-me por completo de ensinos da vida, sobre o amor, a dor, a inveja, a traição, a amizade, a lealdade, a couragem e o medo.

Porém, era sempre o medo que mais me tocava.

Mas a Kianda não faz mal a ninguém, cansa-se de afirmar o velho Soba, o soberano dos AxiLuandas, os nativos da ilha de Luanda em Angola.

...Kianda é uma divindade das águas, protectora dos pescadores.

Conta a lenda que a ondulação do mar mantém importância decisiva na pesca e no abrandar das tempestades. Se haver falta de peixes ou bastante agitação do mar, é sinal de que a Kianda está descontente com os pescadores. Quando assim acontece tem que se realizar uma cerimónia que reúne toda a comunidade da Ilha.

E do mesmo sábio, o Soba, transmitem-se informações de geração a geração, tais como existem doenças que só podem ser curadas pela Kianda; Por exemplo, mulheres que concebem e não conseguem dar a luz.

De igual modo, existem “trabalhos” feitos secretamente na calada da noite, com a autorização e o conhecimento das mais velhas, Bessanganas*, as mulheres de respeito, devotas e guardiãs dos ritos e das tradições.



Elas fazem sempre oferendas a Kianda, oferecendo do mais valioso na exigência da divindade.


Hoje, eu chego a conclusão que o medo que sentia, já superado, foi, e sempre será uma estratégia dos Kotas, os mais velhos, para que as crianças cresçam maduras e conscientes das forças que devem ser temidas, respeitadas e homenageadas.


Bessanganas do português “bença ou benção” .
Nga...Ngana = Senhora (Kimbundu).

Bessangana...A sua benção senhora.

A. Kandimba

Adaptações de contos tradicionais, de Mario Domingos Francisco e Felipe Miguel.

Sunday, 22 January 2012

“Eu sou da nação de Quissamã”


A história dum povo é um diamante.
Uma pedra preciosa, rica e vibrante,
que por sua beleza, raridade e resistencia deslumbrante,
nós eleva com asas de luz viva e cintilante.

(A. Kandimba)


O “Roteiro dos Sete Capitães”, escrito por Miguel Aires Maldonado, conta que o nome “Quissamã” (Estado do Rio de Janeiro), foi dado à região em sua viagem de exploração no ano de 1632.

Na sesmaria que os Sete Capitães tinham recebido, havia um aldeamento de índios Goitacases conhecido como Aldeia Nova. Ao chegarem para conhecer o local, eles foram recepcionados por um grupo de índios e um negro que vivia entre eles.

Os exploradores ficaram perplexos ao verem aquele negro morando por la’.

Ao lhe indagarem quem era e como viera parar ali, ele respondeu que era forro (escravo liberto); ao perguntarem se era crioulo (nascido no Brasil), ele respondeu que era da nação de Quissamã.

No dia seguinte, o negro, que talvez fosse um escravo fugitivo, desapareceu e nunca mais foi visto. (Historico/Quissamã)



Em Angola, Quiçama é um município da província do Bengo ao sul de Luanda, capital do pais. E’o nome do maior parque nacional e foi o reino do povo Sama ou Kissama, fronteiriço com o Reino do Kongo.

Foto: Rei Kahala, dos Kissamas em Angola.