Wednesday, 14 November 2012

PUNA, I Barao de Cabinda: Quanto tempo tera' ficado pelo Brasil?


Fig. - Busto do I Barao de Cabinda Dom Manuel Jose Puna


"Curiosidades dos tempos coloniais"

 
 


 P. JOAQUIM MARTINS, C. S. SP.
   (Historiador Laureado de Cabinda)


Teria nascido a 14 de Fevereiro de 1812.
Era filho do velho e muito considerado Mambuku Puna (ou Kimpuna - Tchimpuna).
No túmulo do pai de Manuel José Puna pode ler-se:



AQUI JAZ/VICE-REI/MAMBUCUO / MUENE PUNA / FAL. EM / 1851 - R. P.






Era o Mambuku Puna senhor das terras de Simulambuku (da margem do Mbuku, do outro lado do Mbuku).
Dão a data de 1 de Junho de 1819, portanto, com perto de oito anos, como sendo a da ida de Manuel José Puna para o Brasil.


Quem o mandou para lá?


1. - Na Enciclopédia Luso-Brasileira lê-se: «Foi mandado pelas autoridades portuguesas educar no Brasil, antes da independência daquele Estado.»


2. - Dos apontamentos do «Duque de Chiázi» se infere que o pequeno Puna foi apanhado, junto à praia, numa altura de carregamento de escravos, e, levado com eles.


Segundo o mesmo «Duque de Chiazi», havia uma lei que proibia expressamente o passear na praia junto. à baía, em dia de carregamento de escravos, "sob pena de ser vendido e transportado para o Brasil.»


Na véspera da saída de um barco o pequenito Puna, tendo ido até à praia para brincar e tomar banho, foi apanhado pela polícia gentílica e vendido a um capitão negreiro que o levou para o Brasil.


Não nos parece de aceitar esta versão, tratando-se do filho de um grande senhor da terra e de muito prestígio. Não é sustentada por mais ninguém.


3. -O pai, Mambuku, té-lo-ia confiado a um capitão negreiro para que o pequeno fosse educado no Brasil. O capitão, em lugar de cumprir o prometido ao velho Mambuku, conservou o pequeno como seu criado.


Quando, passados tempos, Francisco Franque vai ao Brasil já com carregamento de escravos por sua conta, soube da existência desse pequeno seu conterrâneo e de quem era filho. 0 velho Mambuku, para resgate do filho, teria entregue ao Francisco Franque cinco escravos para que o libertasse.


Das três versões qual aceitar como verdadeira?


Certo é que, em terras de Cabinda, a maioria se inclina para a terceira.


Quanto tempo ficou o Puna pelo Brasil?


O «Duque de Chiázi» dá a data de sua ida a 1 de Junho de 1819 e a do seu regresso do Brasil a 3 de Dezembro do mesmo ano.


Não nos parece muito viável. Eram morosas as viagens.


Por outro lado, sabe-se que o Puna veio do Brasil bastante bem educado e à europeia. Tudo isso adquirido só em seis meses, contando viagem de ida e volta?


Segundo as notas do mesmo «Duque de Chiázi» o Puna foi para Benguela, como empregado de Câmara (só com doze anos?) a 4 de Junho de 1820, donde regressou, 27 anos depois, a 2 de Agosto de 1847.


O Puna é feito coronel honorário do Exército Português no Ultramar a 7 de Dezembro de 1857.


A Enciclopédia Luso-Brasileira diz que visitou a Metrópole em 1866 onde foi baptizado, sendo padrinhos D. Luiz I e D. Maria Pia.


O «Duque de Chiázi» dá a ida do Puna à Metrópole para visitar os filhos que lá estudavam, o Vicente e o João, a 6 de Junho de 1871 e o seu baptismo, na capela Real da Ajuda, a 15 de Setembro de 1871.


É-lhe concedido o título de Barão de Cabinda, «de juro e herdade», por decreto e carta de D. Luiz I de 7 de Setembro de 1871.



Em «Portugal em África» - ano 1900, pág. 438/39 - lê-se:


«O Pouna (,escrito à francesa pelo P. J. C. Rooney) tinha a graduação de coronel do exército do ultramar, e quando veio à metrópole em 1871 para visitar seus filhos que cursavam a Escola Académica, foi agraciado com o título de Barão de Cabinda.


«Realizaram-se por essa ocasião as cerimónias do baptismo do novo titular, com a máxima solenidade. O baptismo foi conferido pelo patriarcha de Lisboa, sendo padrinho EI-Rei D. Luiz I.»


É pois o ano de 1871 que se deve ter em conta para a ida a Portugal.


Manuel José Puna foi o verdadeiro homem do tratado do Simulambuco. 0 tratado toma mesmo o nome do local onde ele residia e foi assinado debaixo da Nsanda das questões.


Pelo seu grande amor a Portugal, pelos seus serviços prestados à causa portuguesa foi ainda agraciado com a comenda de N. Sr., da Conceição de Vila Viçosa.


Antero Simões (em «Nós... Somos todos nós») escreve sobre o Barão Puna: «Tendo habitado no sítio, mais tarde histórico, de Simulambuco, em modesta casa de madeira, todos os europeus e naturais de Cabinda o respeitam e consideram.»


Juntemos a estes testemunhos o dos missionários que visitaram Puna em 1870.


«A recepção que o Barão de Cabinda (nessa altura ainda o não seria) faz aos missionários (P. Carrie e P. Dhyèvre), era digna d'um nobre cavalheiro. Ao jantar não se sabia o que devia admirar-se mais, se o luxo e o conforto, se o bom gosto do serviço com seus talheres de prata e louça de fina porcellana, se os manjares delicadamente servidos com seu acompanhamento de vinhos brancos, licôres e até champagne.» (Cf. «Portugal em África» - ano 1900, pág. 439).


Chegamos ainda, na década de 40, a vislumbrar um pouco deste requinte de bem receber, na recepção que era feita, na velha casa do Barão, na data do Tratado de Simulambuco - 1. de Fevereiro de cada ano, tornado dia feriado de Cabinda - por seu filho José Alberto Roberto Puna, 2.' Barão de Cabinda (que veio a falecer, em circunstâncias de não mui fácil explicação, a 12 de Novembro de 1955).


Mas, de «talheres de prata e louça fina de porcellana» já mui pouco se via.


O velho Barão Manuel José Puna, depois da fundação da Missão Católica de. Cabinda em 1891, no dia da festa da padroeira, 8 de Dezembro, nunca faltava. Fazia-se conduzir de tipoia. A sua casa distava uns bons 4 a 5 quilómetros da Missão. A seu lado, um negro trazia-lhe a farda de coronel. Vestia-a na Missão e assistia à missa solene -e ele solenemente fardado - almoçando depois com os missionários.


Manuel José Puna veio a falecer, com 92 anos de idade, a 4 de Agosto de 1904.


No seu túmulo, encimado pelo busto de D. Carlos I, lê-se:


AQUI JAZ / O 1. BARÃO / DE CABINDA / FAL. EM 4 DE / AGOSTO / DE 1904/R. P.


No túmulo de seu filho e sucessor, túmulo encimado pelo busto do Marechal Carmona, está escrito:


AQUI JAZ / J. Al-B. R. PUNA / II BARÃO DE CAB. / FAL. 12 NOV. 1955 / R. I. P.


O problema da sucessão depois da morte do segundo Barão de Cabinda, uma vez que faleceu em circunstâncias que os naturais afectos aos Punas e, sobretudo, a família julgam trágicas, não tem sido fácil. Todos os sucessores mais directos se escusaram.


Porquê? A resposta parece não ser fácil.


Mesmo assim veio a tomar posse do título (em 1957) o já velho José Lourenço Barros (Puna), apresentado como sobrinho (mas não na linha mais directa) de José Alberto Roberto Puna.


José Lourenço Barros faleceu a 7 de Setembro de 1968.


Jaz em campa rasa ao lado dos antecessores. Uma simples cruz de madeira com seu nome e data de sua morte.


Recordações e insígnias que a família Puna ainda conserva


1 - A espada e o chapéu de coronel (muitíssimo deteriorado, mais de 100 anos de existência) do velho Barão Manuel José Puna.




Fig. P5 Zimpungi e capacete do I Barao de Cabinda

2-Três grandes «Zimpungi».


3 - Duas «Bimpaba», sendo uma em prata e outra em marfim. Em marfim foi a única que vimos.

Fig. P6 - As Bimpaba dos Punas

4 - Um belo «Ngongie» (tímbalo de duas bocas) em prata. Deste metal foi também o único «Ngongie» que vimos.



Fig. P7 - O Ngongie, Koko e pegadeiras do Barao Puna

Quando o Barão se deslocava era anunciada a sua passagem pelo toque do «Ngongie». O «Mbula Ngongie» ia sempre à frente do cortejo. («Mbula Ngongie» - tocador de «ngongie»).



Tambem ver: http://kandimbafilms.blogspot.nl/2012/10/o-gunga-no-berimbau-significacao-da.html    (A. Kandimba)



5 -Tem ainda o Koko. É um género de bastão com ornatos, em prata, nas extremidades. É bem bonito e de valor este Koko.


A parte inferior faz de campainha e tem mesmo um pequeno badalo. Batendo com o Koko no chão, ou sacudindo-o, anunciava a sua passagem.


6 - Duas pegadeiras, em marfim, que eram aplicadas na tipoia em furos para isso feitos e a que se segurava, com uma e outra mão.


São bem torneadas e encimadas por cabeça de mulher.




Fig. P 8 - O Mbuku-Mbuádi, cemiterio dos Punas

OS FRANQUES


É família numerosa e antiga.
Encontramos o nome de vários Franques na assinatura do Tratado de Simulambuco.
Um dos mais antigos e de quem mais se fala é do velho Francisco Franque, muito anterior ao Tratado.
Nasceu a 2 de Janeiro de 1777. Seu pai era o Mafuka Cocolo Franque. Mandou-o educar no Brasil. Para lá seguiu a 20 de Março de 1784. Regressou a Cabinda, 15 anos depois, a 19 de Maio de 1799.
Conseguiu ter barco seu. E com os conhecimentos que já possuía chegou a ir ao Brasil, por sua conta, com carregamento de escravos.

Este mesmo Francisco Franque procurou conseguir um carregamento de goma copal. Dizem que muita havia no alto da planície do Ntó. Tratava-se de goma copal dura, que só se conseguia extrair cavando junto às árvores ou pela planície fora onde já se encontrava fossilizada.


Parece que apenas conseguiu meia carga. Mas não foi por que não houvesse mais.
É que a mentalidade da época atribuía a formação da goma copal ao efeito do raio. Ora, o raio - Nzázi -é qualquer coisa de «sagrado» e enviado directamente pelo Nkisi-Nsi que, por meio dele, pode castigar os homens tanto mais se arrancam da terra o que é produto da acção do Nzazi e do NkisiNsi!...


E veio das mulheres a revolta. Para que o Nzazi e Nkisi-Nzi as não castigasse, recusam-se a arranjar mais goma copal e ameaçam não cozinhar para os homens, caso continuem nesse trabalho.
Este meio carregamento tê-lo-ia vendido no Ambriz, ao tempo o melhor porto para venda deste produto.



Francisco Franque, por serviços prestados à causa portuguesa, que se lhe reconheceram, foi feito Coronel honorário do Exército Português no Ultramar, a 5 de Março de 1803.
Veio a falecer a 30 de Abril de 1875.
Foi este velho «Chico Franque» quem recebeu também os Padres Carrie e Dhyèvre em fins de 1870 e do qual se diz: «O Chico Franque recebeu-os do seu lado com as mais espontâneas demonstrações de alegria e sincera satisfação, apertando-lhes as mãos como a velhos
amigos e chorando de emoção. Contou-lhes que tinha sido baptizado no Brasil e que desde a sua vinda para a África raríssimas vezes tornara a ver um padre; que os poucos que de longe em longe apareciam eram capelães da Armada Real ... » ( «Portugal em África», La Série, ano 1900, págs. 438/440.)



O Francisco Rodrigues Franque (também conhecido por Chico Franque) e Domingos José Franque (o de «Nós, os Cabindas») são descendentes do velho Chico Franque.
Donde lhes vem o nome de Franque?
Em apontamentos do «Duque de Chiazi» - Dom José Manuel da Conceição Baptista Franque - encontra-se o seguinte:



«O ancião Mafuca Cocolo Franque foi um homem leal, muito franco e amicíssimo para com os primeiros brancos portugueses... e a todos os pedidos que os brancos portugueses lhe faziam ele os cumpria com toda a franqueza e amabilidade ... »


E acaba o «Duque de Chiázi» por afirmar que, por isso, lhe começaram a chamar «Franco», o «Senhor Franco... » «mas com a pronúncia Cabindeana se modificou de Franco para Franque ... »


Não cremos, por nossa parte, que com tanto contacto com os portugueses se transformasse o nome de Franco em Franque. A explicação dada não concorda com o modo mais comum, segundo os usos e costumes dos Bakongo e Bauoio, de se dar ou adoptar um nome (Cf. Nomes e apelidos).


Franque, segundo a opinião do Irmão Evaristo Campos (em Cabinda desde 1895 a 1970) e confirmada por velhos de Cabinda, colhida já da tradição, teria vindo do nome de um senhor europeu, com comércio e bens em Cabinda, que era francês e até teria um nome como Franck ou coisa semelhante.


Existe mesmo entre franceses o nome de FRANQUE.


A Encyclopédia Portuguesa Ilustrada fala-nos de dois irmãos FRANQUE (João Pedro e José) gémeos, nascidos em 1774. Foram pintores.


José faleceu em 1812 e João Pedro em 1860. (Maximiano lemos, «Encyclopédia Portugueza Ilustrada» (11 Vai.), Vai. V, pág. 32 (Encyclopédia Portugueza Ilustrada, Dicionário Universal, Porto).


Faleceu o tal senhor. Vivia só. Não se sabia de sua família, Os seus bens, todos os seus bens, teriam passado às mãos da família que agora adopta o nome de Franque.


É muitíssimo mais de aceitar esta razão por se coadunar perfeitamente com os costumes quanto a tomada de um novo nome que vem provocar uma como que «mudança substancial do indivíduo.»


E isto se confirma com o que aconteceu a outros.
De onde vêm as famílias Jack, Wilson e Espanhol?
Precisamente da ligação com os ingleses Jack e Wilson e com o espanhol Dom José dei Vale.
Vamos apresentar um caso interessantíssimo da mudança de nome, precisamente na família Franque.



D. José Manuel da Conceição Baptista Franque, conhecido também por «Duque de Chiázi», falecido a 16 de Abril de 1966, apresentava-se como directo herdeiro dos Franques. E, na verdade, era na posse dele - e hoje na de seu filho D. João Maria da Conceição Baptista Franque - que se encontravam as insígnias da família.


Contudo, Dom José Manuel da Conceição Baptista Franque, Duque de Chiázi, foi baptizado a 25 de Dezembro de 1898 na Missão Católica de Cabinda, com a idade provável de 13 anos, e no baptismo recebeu o nome de Manuel e tendo o de Lambi (Manuel Lambi) como nome de família. É dado como filho de Baptista e de Lango, naturais do Kinga (Chinga). Foi padrinho Pedro Songo e baptizou-o o Padre AI. Savary. Confira-se o registo No 32 do ano de 1898.


Manuel Lambi veio a casar com Hermelinda Malila a 30 de Novembro de 1906. Confira-se o registo no 37 de 1906 da Missão de Cabinda. À margem do registo lê-se bem: Manuel Lambi e Hermelinda Malila. Mas o nubente, nesta altura, já assina como sendo José Manuel Lambi Baptista Franque. Seu filho João, no registo de baptismo, é dado por filho de Manuel Lambi Baptista Franque.


E, sem dúvida, não é muito fácil compreender como de simples Manuel Lambi se passou para José Manuel Lambi Baptista Franque e depois, não se sabe a partir de que data, para Dom José Manuel da Conceição Baptista Franque, «Duque de Chiázi» e a viver na «Avenida de Residência Real Duque de Chiázi».




Residência do «Duque de Chiázi»

As insígnias dos Franques


1 - Três «Zimpungi» - defesas de elefante tornadas instrumentos musicais.


2 - Quatro «Bimpaba». Só na família Jack encontramos igual número. Mas se juntarmos a estas quatro a que se vê na posse do Kapita de Kaio-Kaliado e onde está gravado o nome de «Bonzola Franque», teríamos cinco, pelo menos, nos Franques.


O número de «Bimpaba» pode bem estar relacionado não somente com a dignidade das pessoas mas também com a sua maior ou menor ligação em negócios com os europeus.


Em uma destas «Bimpaba» dos Franques está gravado o nome de MAFFUCA FRANQUE COKELOO (deveria ter sido gravado COCOLO).


Numa outra, somente as iniciais M. B. (Manuel Baptista?)


Há um Manuel Baptista Franque no tratado de Simulambuco.


3 - Uma bengala com castão de prata, bem trabalhado, e onde ainda hoje se pode ler perfeitamente, no topo do castão: Domingos.


Muitas vezes vimos nós o «Duque de Chiázi» com esta bengala, Deveria ter sido de Domingos José Franque.


4-Uma espécie de guizo, em prata, do formato de uma pequena cabaça em que a parte correspondente ao bocal termina numa mão fechada (nkome), em sinal de força e energia.


Nkome kakinda:
Teka vútula mbusa.
(Para se dar) um murro forte:
É preciso recuar a mão atrás (para ganhar balanço).




Fig. C7 - O tumulo do Duque de Chiazi

Ainda se encontra gravado o seguinte:


a) PRINCE
CAPITA MANITATI
FRANQUE

b) Do lado contrário a esta inscrição, tem gravado o sol (bem resplandecente) e a lua (em ponto muito menor). Isto para significar: Ngonda podi vioka ntangu ko - A lua não pode passar à frente do sol. A mulher é menos que o homem; os súbditos, menos do que o Chefe, o Rei.


c) Na parte superior, já junto ao suposto bocal e «nkome», lê-se a proveniência deste objecto: ELKINOTON & C. Liverpool.


Teria sido oferta desta firma aos Franques ou encomenda destes?


d) Em toda a volta, na parte inferior, gravada a representação da trepadeira "Kilamba."


Kilamba kikambua lisina: Nzambi ka sa kivanga ko.
«Kilamba» a que falta raiz: Deus não a fez.
O que Deus faz, fá-lo bem feito.


5 - Possuem ainda uma estatueta, também em boa prata antiga, a que chamam o «Tata Mikono.»
É a representação de um homem, que simboliza a rei, levando aos ombros dois de seus filhos.
Sempre temos visto o «Tata Mikono» com a representação de um filho só.


Tata, tala Mikono:
Ngeie v'ivembo liami ukele.



Pai, olha a planície de «Mikono»:
Tu estás no meu ombro.



O filho tudo deve ao pai, como o súbdito ao Chefe, ao Rei.
6 - Urna salva, igualmente de prata antiga e bastante pesada.


No túmulo do Duque de Chiázi, recentemente construído - em 1970 - pelo artista João Baptista Franque (que aprendeu na Missão Católica de Cabinda), vê-se uma estátua em cimento, representando o defunto (bastante parecido, não haja dúvida) de ceptro e globo nas mãos, significando realeza, de «Nzita» na cabeça e de «Kinzemba» pelos ombros, insígnias reais dos Bakongo e Bauoio.


Do lado direito nota-se o «Tata Mikono» e, do esquerdo, a cabeça de uma pessoa representando o antepassado donde proviera!



Fig. C8 - O filho e herdeiro do Duque de Chiazi

Fig. P 9 - As Bimpaba, Zimpungi e outras insignias dos Franques

Fig. P 10 - O Tata-Mikono dos Franques

MANUEL ANTÓNIO DA SILVA
O seu nome aparece muito apagadamente entre os que «estavam presentes» à assinatura do Tratado de Simulambuco.


Mas Serpa Pimentel, que muito bem o conheceu e que para Cabinda foi, como Delegado do Governo logo após o tratado, 1885, no seu «Um Ano no Congo» - trabalho iniciado nos princípios de 1897 e dado por terminado a 16 de Janeiro de 1899 - escreve a seu respeito e em seu abono o seguinte:


«Os protectorados de Cabinda não se teriam levado a efeito se não fôra o valiosissimo e desinteressado auxílio do prestante cidadão Manuel António da Silva»... (Serpa Pimentel, op. cit., in «Portugal em África» ano 1899, em nota da pág. 249.)


O terreno, onde se encontram instaladas as Missões Católicas Masculina e Feminina e os pavilhões do Pequeno Seminário, era propriedade de Manuel António da Silva que o vendeu à Missão Católica Masculina.


Por causa das novas fronteiras entre o Estado de Cabinda e o então Estado Independente do Congo-este só aceitava missionários belgas - o pessoal da nossa missão de Boma veio para Cabinda, onde chegou a bordo do «Souverain», em 5 de Outubro de 1891.


A 28 de Outubro de 1891, conforme se lê, numa crónica, cumpridas todas as formalidades, o pessoal da nova missão, ia habitar a pequena vivenda do antigo proprietário, que apenas tinha três quartos, de quatro metros cada um. ( «Portugal em África», 1.' Série, ano 1899, págs. 498 e segs.)


ANTÓNIO THIABA DA COSTA


Era natural de Chicamba, Massabi.
Foi um dos grandes colaboradores de João José Rodrigues Leitão Sobrinho no tratado de Chinfuma e o principal obreiro do tratado de Chicamba.



Muito amigo de Portugal e homem de forte influência sobre os naturais.
Por Portaria do Governo Geral de angola no 102 de 27 de Fevereiro de 1884 «atendendo ao merecimento e aos serviços prestados na ocupação dos territórios de Kakongo e Massabi» é nomeado capitão de 2 a linha da Província.


Ainda por Portaria no 491 de 6 de Setembro de 1884, do mesmo Governo Geral, «atendendo aos bons serviços prestados sempre, é nomeado chefe da delegação da estação civilizadora da Massabi».


António Thiaba da Costa veio a sofrer de perturbações mentais.



Em «No Congo Português», o governador do Distrito, primeiro tenente de marinha, José Cardoso - Cabinda 1913, escreve:
«Não será ridículo colocar ao lado destes nomes ilustres (ele fala de Guilherme Capelo, do Visconde de Cacongo, de Manuel António da Silva, Santos Silva e de Serpa Pimentel) o nome obscuro do indígena Tiaba, que tão devotado foi à causa portuguesa, e tanta confiança mereceu, que chegou a ter à sua disposição um destacamento de tropas regulares, tendo os seus serviços sido recompensados pelo Governo Português, dando-lhe o posto honorário de capitão e uma pensão que ainda hoje recebe. Tiaba ainda vive, meio maluco, sem influência sobre os nativos, conservando dos tempos idos, apenas, uma figura de preto imponente que a poucos sensibiliza e a raros lembra a relíquia que para nós representa.»


Em nota, neste mesmo relatório, se lê: «O capitão Thiaba faleceu a 28 de Agosto de 1913, sendo prestada por essa ocasião uma justa homenagem de gratidão à sua memória pela população de Cabinda.»

Bom é saber-se, contudo, que a expensas do Governo, quando Thiaba da Costa adoeceu mentalmente, foi enviado para a Metrópole e hospitalizado em Rilhafoles.
Quando o bom Irmão Gervásio foi de licença graciosa na primeira década deste século (ele que bem conhecia Thiaba da Costa, pois fora para Lândana em 1889) foi visitá-lo ao hospital.

O pobre Thiaba da Costa, saudoso da sua terra, muito insistiu com o Irmão Gervásio Dantas para que falasse com alguém de influência a fim de que lhe fosse permitido regressar à sua terra, onde desejava vir a falecer. O pedido foi feito e concedido.
Thiaba da Costa regressou a Lândana confiado aos cuidados do Irmão Gervásio.
Este último facto foi-nos narrado pelo Irmão Evaristo Campos, que veio para Cabinda em 1895, e que conheceu muito bem António Thiaba da Costa.



GUILHERME AUGUSTO DE BRITO CAPELO


Nasceu em Lisboa a 5 de Abril de 1839.
A 1 de Outubro de 1858, a bordo da nau «Vasco da Gama», embarca pela primeira vez para angola.


A partir de 1881 anda pelas costas de angola.


De 1883/85, ao norte do Zaire, autorizado pelo Governo de Sua Majestade Fidelíssima EI-Rei de Portugal, elabora os tratados de Chinfuma (29 de Setembro de 1883) com os príncipes e chefes de Cacongo, e o de Simulambuco (1 de Fevereiro de 1885) com os de Ngoio.

Em 1886 é Governador Geral de angola.

Em 1896 é nomeado Comissário Régio de angola.


Foi comendador da Ordem de Aviz e cavaleiro de várias ordens.


O Governador Geral Ferreira do Amaral, em 13 de Outubro de 1883, pede para ele ao Governo de Sua Majestade a comenda de Torre e Espada, pelos serviços prestados na ocupação dos territórios de Cacongo e Massabi. Mas com data de 5 de Dezembro desse mesmo ano de 1883 sai antes um Decreto em que lhe é concedida a Comenda da Conceição (a que vem a renunciar).


Veio a falecer a 21 de Março de 1926, com 87 anos de idade.


(Postado por A. Kandimba)

Do blog Nzila Kongo

E tambem: http://www.carlosduarte.ecn.br/franquejosepuna.htm

Wednesday, 7 November 2012

Mama Ngoyi


“Sejamos corajosas: Ouvimos de homens que tremem nas suas calças, mas quem alguma vez ouviu de uma mulher que treme na sua saia?”





Frase afirmada em1954, por Lilian Masediba Ngoyi, no palco da conferência inaugural da Federação de Mulheres Sul-Africanas (FEDSAW).


E assim, sobre aplausos e risos, Ma Ngoyi, como era conhecida, uma  mãe viúva de três filhos de Orlando, em Joanesburgo, concluiu o seu discurso na forma típica, com a declaração de que toda a mulher Sul-Africana, independentemente da sua raça ou origem, deve estar disposta a morrer para o futuro dos seus filhos.


Nascida em 1911, em Pretória, Lilian Ngoyi tornou-se uma das principais luzes de protestos anti-apartheid. Em uma carreira política que durou três décadas, Ngoyi, uma costureira de profissão, foi presidente nacional da Federação de Mulheres Sul-Africanas, secretária-geral da Liga das Mulheres do ANC (Congresso nacional Africano), tornando-se a primeira mulher a ser eleita para um cargo no corpo principal do (ANC). 

Em Pretória, em 9 de Agosto de 1956, ela levaria os membros da Federação de Mulheres Sul-Africanas para as portas do “ Union Buildings”,  para apresentar petições de protesto contra as leis do passe, em nome das 20 mil mulheres de toda a África do sul,  que se reuniram do lado de fora. Mais tarde, e no mesmo ano, ela foi presa por alta traição, juntamente com outros 155 líderes e ativistas. Um evento que marcaria o início de uma sucessão de ordens de proibição e tentativas de censura destinadas para silenciá-la.

Em suas palavras e ações, Lilian Ngoyi, combinou as suas identidades como Africana, mulher, mãe e trabalhadora, para mobilizar as mulheres na luta contra o apartheid. 


Para Ngoyi, as restrições e limitações das leis do apartheid estavam no coração do sistema da supremacia branca. Portanto, era natural que as mulheres negras estivessem na vanguarda da resistência anti-apartheid. Ela destacou a forma como essas mesmas leis, através da restrição do movimento negro, dificultava as mulheres africanas e foram deliberadamente projetadas para corroer a família Africana e negar um futuro as crianças africanas.

Ngoyi dedicou a sua vida a luta contra estas medidas opressivas, para garantir um futuro melhor aos seus filhos e as crianças da África do Sul, tendo mobilizado uma marca da maternidade militante que pôs a nu a natureza opressiva do apartheid e permitindo, simultaneamente, abordar a situação específica das mulheres na África do Sul e as lutas mais amplas raciais contra o apartheid.


Em 1955, audaciosamente, ela embarcou em uma viagem altamente ilegal, para Suíça, tendo participado do Congresso Mundial de mães, organizado pela Federação Internacional Democrática das Mulheres (FDIM). Também viajou para a Inglaterra, Alemanha, Roménia, China e Rússia, antes de regressar a sua terra natal como uma mulher procurada.

Como resultado da sua rebeldia, ela foi constantemente monitorada pela polícia e nenhuma notícia dela foi autorizada a aparecer na imprensa. Foram impostas varias ordens de proibição, que duraram mais de 15 anos.  Ela foi proibida de se deslocar para fora do seu bairro, e não podia atender, ou se encontrar, com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, incluindo familiares.


     Foto:Rahima Moosa, Lilian Ngoyi, Helen Joseph, and Sophie Williams


Durante a marcha de 9 de Agosto de 1956, declarada desde então como o dia nacional da mulher Sul Africana,  as mulheres cantaram canções de liberdade, como Nkosi sikeleli Afrika. Mas a canção que se tornou o hino da marcha foi:

Abafazi wathint ', (Quando se bate em mulheres)
Imbokodo wathint ', (Se bate em uma rocha)
Uza Kufa! (Você será esmagado)



(A. Kandimba)



                               Lilian Masediba Ngoyi 1911-1980




Traduzido das seguintes fontes:

http://womenshistorynetwork.org/blog/?p=498

http://www.perfumepower.co.za/blog-27/womens-day-so-what-is-all-the-fuss-about
http://www.sahistory.org.za/content/leaders-1955-womens-march-holding-petitions-against-passes-0

Thursday, 1 November 2012

A mãe e a criança




Poderia ter sido em retorno da diversidade do seu tom
do encanto e da imposição do seu som
Ou apenas um tributo em honra da mulher Africana
pelo papel essencial que vem a desempenhar
nas nossas sociedades
Como um pilar do amor e carinho
Como um emblema de ensino e de educação 
 para com a vindora geração.

Quem sabe!


Diz a tradição que, o Gankoqui, sino mestre
presente em quase todo aspecto cotidiano Africano
seja real, espiritual ou musical
inspiração de algum ferreiro
amante da lógica e afeto pela vida
foi moldado, em brasa, a imagem simbólica
de uma mulher
acompanhada de uma criança nas suas costas.

Gankoqui, a mãe e a criança.

Duas vozes, em dobro
Duas campânulas, um corpo.
(A. Kandimba)




Gankoqui, sino mestre, sino duplo, na cultura Ewe do Gana, também conhecido em varias outras culturas africanas como Ngongi, Agogo, Ngunga, Ogbene, etc.

Ngunga:: http://kandimbafilms.blogspot.nl/2012/10/o-gunga-no-berimbau-significacao-da.html


Saturday, 27 October 2012

Congo: A congada do Panamá

A Rainha: é a autoridade máxima! Ela representa a mulher forte que liderou o êxodo e administrou o governo e a justiça nos palenques (Quilombos).

Imagem: Congo monarca, rainha mãe Alejandrina Lan, coroando a sua sucessora.(12 de Novembro de 2011, Hospital Seguro Social, Panama)


O assunto floresceu através da noticia enviada por Deivison Nkosi, professor de História da África e da cultura negra em São paulo, no Brasil, durante uma palestra fascinante sobre a presença dos "congos en las américas" elaborada pela Dra. Sheila Walker dos EUA, em Panamá.


O congo de Panamá, igualmente as congadas e Moçambiques do Brasil, predominantes nos estados do Rio Grande do Sul, Minhas Gerais, São Paulo e Espirito Santo, e’ uma manifestação cultural Afrocatólica em que simbolicamente se coroam, em grandes comemorações, o rei e a rainha do antigo reino do Kongo.


O
Reino do Kongo ou Império do Kongo, um dos maiores reinos africanos, foi um reino africano localizado no sudoeste da África no território que hoje corresponde ao noroeste de Angola, a Cabinda, à República do Congo, à parte ocidental da República Democrática do Congo e à parte centro-sul do Gabão.
Na sua máxima dimensão, estendia-se desde o oceano Atlântico, a oeste, até ao rio Cuango, a leste, e do rio Oguwé, no actual Gabão, a norte, até ao rio Kwanza, a sul. O reino do Congo foi fundado por Ntinu Wene, no século XIII.


O império era governado por um monarca, o manicongo, consistia de nove províncias e três reinos (Ngoy, Kakongo e Loango), mas a sua área de influência estendia-se também aos estados limítrofes, tais como Ndongo, Matamba, Kassanje e Kissama.[1]

A presença Congo/Angola nas Américas, cada dia torna-se mais e mais impossível de se negar. As expressões culturais de natureza semelhante, como por exemplo, a coroação de um rei na Bolívia, algo que tinha explorado anteriormente,
http://kandimbafilms.blogspot.nl/2012/05/julio-o-rei-afro-boliviano.html,
faz-me crer, com muito mais impacto, no que o historiador e pesquisador Spirito Santo, http://spiritosanto.wordpress.com/ , teria afirmado, em relação a este assunto. Que seriam
manifestações ja’ vindas com os Africanos e não concretamente criadas no " novo mundo".

O Congo Panamenho, com a sua rainha, o rei, o príncipe, o caçador, o matuanga capitão do Congo, provavelmente do Kikongo Mwata Nkanga (senhor/ chefe líder), o conselheiro, o holandês, o arcanjo, o diabo, o catequista, o escravo, entre outros, se destaca como uma reunião entre descendentes de Africanos, onde se dança, se toca e se satiriza o opressor branco. A  música serve como um meio de alívio, mas também de nostalgia.
(A. Kandimba)


Todas as demais informações especificas e necessárias, em espanhol, aqui:
http://www.educapanama.edu.pa/aritculos/los-congos-en-panam%C3%A1
Em Ingles:
http://www.thepanamanews.com/pn/v_17/issue_12/lifestyle_10.html

As Congadas de Osório (Dante de Laytano, 1945)

http://www.festa.inf.br/2011/08/as-congadas-de-osorio-dante-de-laytano_12.html

1. Thornton, John. Demography and History in the Kingdom of Kongo, 1550-1750. [S.l.]: The Journal of African History, Vol. 18, No. 4, 1977. 526 ss p.






Saturday, 13 October 2012

Eu, semente

Eu, semente
ambiciono o milagre da flor...











 







Que se lancem rebentos
ao pousar os meus lábios
em teu corpo seduzido em ardor

Faz-me rosa
Faz-me acácia
Faz-me louco sonhador

Anseio, sem receios
em ser umedecido
pelas águas do teu amor

(A. Kandimba)

Saturday, 6 October 2012

Um

Se podemos olhar

uns para os outros,

 juntos podemos olhar 

 para a mesma direção
 
(A. Kandimba)


Friday, 5 October 2012

Dia do Poeta (Para Langston Hughes)

Neste dia do poeta
me embriago no néctar
da flor da minha poesia


 No jardim do amor
me despetalei da teoria 
Jamais me perfumarei da utopia 
de aronia e agonia

Sim, e' realmente o amor que me guia


Hurra!!!

O poeta chegou ao mundo!!!

Muita glória, muita alegria!!!
(A. Kandimba)


 Langston Hughes (1902-67), poeta, novelista e dramaturgo. Foi um dos expoentes do "Renascimento do Harlem" movimento artísti­co que celebrava a cultura Afro-Americana dos EUA nos anos 1920.

Foto: unknown

Thursday, 4 October 2012

Bem me Ker...Mal me Ker


Bem me ker, mal me ker
...Mentiroso e' quem nega que nunca o fez



  Mesmo sem uma petula de chance
em ter quem você deseja
Mesmo que esse mesmo desejo
se recusa em te chamar
de “o meu bem querer”


Bem me ker, mal me ker
...Bem me ker, mal me ker...
Bem me ker, mal me ker...


(A. Kandimba)



Wednesday, 3 October 2012

Abaixo o Eurocentrismo!



 Eurocentrismo

O eurocentrismo como uma visão de mundo que tende a colocar a Europa (assim como sua cultura, seu povo, suas línguas, etc.) como o elemento fundamental na constituição da sociedade moderna, sendo necessariamente a protagonista da história do homem.

Acredita-se que grande parte da historiografia produzida no século XIX até meados do século XX assuma um contexto eurocêntrico - mesmo aquela praticada fora da Europa. O revisionismo histórico ocorrido nas últimas décadas, por intelectuais como, por exemplo, Edward Said, tendeu a reverter esta visão de mundo, em busca de novas perspectivas.

O eurocentrismo manifesta-se como uma espécie de doutrina corrente no meio acadêmico, que, em determinados períodos da história, enxerga as culturas não-européias de forma exótica ou mesmo xenófobo. Foi muito comum principalmente no século XIX, especialmente por ser um ideal do Darwinismo social que a humanidade caminhasse para o "modelo europeu", e deixou alguns traços sutis, tais nos mapa-múndi da projeção de Mercator.

Devido ao papel da Europa na formação da cultura ocidental, o termo "eurocentrismo" é muitas vezes confundido com ocidentalismo.

(http://www.mundoeducacao.com.br/geografia/eurocentrismo.htm)

Foto: The Belleme family blog

Wednesday, 26 September 2012

Rua do Poço dos Negros: Lisboa também já foi um Valongo!

“O El Rei D. Manuel I mandou abrir um poço para onde eram lançados os escravos negros, que morriam pela cidade de Lisboa.



Os cadáveres dos escravos eram atirados em montes pela saida da cidade ou para os grandes quintais dos arredores.


Para acabar e evitar as epidemias, tomou o Rei a decisão de mandar abrir um poço (ou Vala) para funcionar como cemitério dos negros, já que quando morriam não tinham direito a serem enterrados nos espaços das Igrejas.”


(Ruas de Lisboa com alguma História)

 

 


Rua do Poço dos Negros - (c. 1900) - Fotógrafo não identificado (Senhoras passeando junto ao Palácio Flor da Murta) in AFML



De acordo com Júlio de Castilho, a origem deste topónimo pode encontrar-se numa carta régia de Dom Manuel I -13 de Novembro de 1515 -, pela qual o rei pedia à cidade de Lisboa que construísse um poço para colocar os corpos dos escravos mortos, sobretudo na época das epidemias.

Diz a carta que os escravos chegavam a ser lançados «no monturo que está junto da Cruz [de Pau a Santa Catarina] q[ue] esta no caminho q[ue] vai da porta de santa C[atari]na p[ar]a santos,» para a praia.

Para evitar as consequências dos cadáveres insepultos, o rei considerava «q[eu] ho milhor remedio sera fazer-se huu[m] poço, o mais fumdo que podese ser, no llugar que fose mais comvinhauel e de menos imcomvyniemte, no quall se llãçasem os ditos escravos» e que se deitasse «alguma camtidade de call virgem» de quando em quando para ajudar à decomposição dos corpos.

A Câmara de Lisboa teria cumprido a ordem do rei construindo um poço no caminho para Santos,
também conhecido como Horta Navia.


(Freguesia: Santa Catarina)



CASTILHO, Júlio de, A ribeira de Lisboa: descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos-o-Velho. IV Volume, Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1940, p.152.
CASTILHO, Júlio de, Bairro Alto. III e IV Volume, Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1940.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga: bairros orientais, IV, V, VII, XI, volume, Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1937.

Tuesday, 18 September 2012

Ohuita (Curiosidades e relíquias do planalto de Benguela)

A juventude da povoação de Chivinga, orgulha-se em fazer roncar um pedaço de tronco de árvore, algo entre o oco, o escavado e o surdo...Seja fora ou dentro de momentos de caça para atrair animais, momentos festivos, momentos de comunicação entre povoações e aldeias, ou mesmo específicas ocasiões cerimoniais e espirituais.





A Ohuita ou simplesmente huita, um tambor de fricção tradicional dos povos Ovimbundu do centro e sul de Angola e, típico das expressões culturais do ramo Banto no continente Africano, e’ tocado com uma vara de madeira que se encontra dentro do tambor e presa à pele.

O artista molha as mãos e esfrega-las ao longo da vara, produzindo sons normalmente de rugidos semelhantes ao ronco.

Ohuita...huita...pwita...Cuíca!

(A. Kandimba)


 

Fontes: Music of the Ovimbundu




Wednesday, 12 September 2012

Chiseya e os três Ngomas (Curiosidades e relíquias do planalto de Benguela)

Para evocar os espíritos da Chiseya, os povos Ovimbundu do planalto central de Angola, pedem humildemente e com bastante insistência um boi, uma galinha e uma ave. Daquelas aves que se vê voar bem perto das nuvens. 

 



 Chiseya é uma música de dança em que homens e mulheres se reúnem em duas fileiras opostas.  Forma-se um par em uma extremidade e dança-se entre as linhas até que se atinge a outra extremidade.

-E quando se sacrificam os bichos?

Pensam os curiosos que desconhecem as leis, os costumes e hábitos dos povos do planalto de Benguela.



Bem, como toda dança tem a sua musica e toda musica e’ normalmente acompanhada por um instrumento, explica-se a quem veio de longe, com muita paciência, o paradeiro dos bichos.

O grupo de percussão consiste de três tambores.


O tambor grande é chamado omungomba, a voz do boi. Ele dá o ritmo básico. O tambor médio, chamado de otchipapo, a voz da galinha, faz a função de solista...narrativo, enquanto que o pequeno é chamado de ohenjengo, a voz da ave, preenchendo o ritmo...nos agudos.

E esta, hein?!

(A. Kandimba)



Foto: Uli Martini
Fonte: Music of the Ovimbundu (1972)

Sunday, 26 August 2012

Fortunata, uma princesa Bakongo em Porto Alegre

Contam os rugidos dos leões da história, dum passado recente que, por traição de um inimigo, uma das filhas do Rei do Kongo caiu vítima das mandíbulas e as garras diabólicas da ganância...Acorrentada no porto de Benguela, em Angola.





Fortunata Nkanga a Mvemba, de corpo e alma, posterior Fortunata Joaquina da Encarnação da Costa Conde Faustina, de desdém e angústia, foi destinada e subjugada ao trabalho doméstico, em Porto Alegre, Sul do Brasil.

Porém, por impetuosa exigência do seu pai, os sonhos da princesa de retornar a subir e descer a montanha sagrada de Kibangu, aonde a crença fervorosa da jovem rebelde e profetisa Kimpa Vita se destacou, mergulhar nas águas milagrosas do rio Nkisi, de correr e de se perder pela floresta de Mayombe, livre e nos braços dos seus ancestrais, se transformaram em realidade.

A princesa foi retornada à sua terra santa, Mbanza Kongo, em 1825.

Que impressão teria deixado a princesa criança entre os seus irmãos e irmãs de Porto Alegre? Que estórias e testemunhas, persistências e resistências dos seus viveres teria levado consigo?

Oxalá que essas mesmas estórias se tornem pesquisas de grandes e lúcidos historiadores, rimas de poetas aventureiros e canções de cantores cobiçosos, para que,  perante os olhos do mundo, a princesa jamais se tornará invisível?

(A. Kandimba)


Imagem:  Folk Tales And Fables Of The World (Barbara Hayes & Robert Ingpen).
Fontes: Arquivo historico BPN, Lisboa - Portugal